Jun 24, 2023

Bits x carne

Pensamento sobre amizade real e virtual

Hoje é o dia do amigo (hoje não, na verdade é dia 30/06), palavra esta, como tantas outras, desgastada e quase desprovida de significado em vista do uso excessivo, indiscriminado, banalizado por tantos meios virtuais, interessados em passar mensagens e conceitos nada verídicos, porém muito atrativos para se ganhar o vil metal mais que desejado; fins justificam meios.

Vemos nesta própria rede em que escrevo, na qual forçosamente qualquer pessoa adicionada é chamada de "amigo" e aí podemos ter amigos aos milhares, mas só 5 mil.

Lembro que a bastante tempo, lá pelos 2000, uma revista semanal fez uma matéria de capa sobre o assunto, expondo de forma extensa aquilo que hoje não produz mais espanto e nem comoção até, que o círculo social virtual se expande às dezenas, centenas ou milhares para a maioria das pessoas enquanto o círculo real de amizades encolhe para uma dúzia de gatos pingados ou para os dedos de uma mão, isso para alguns sortudos.

A contabilidade virtual x real é posta à prova, mostrando o fosso abissal existente elas, quando você precisar de algo real, e não apenas curtidas ou coraçõezinhos que hoje são feitos quase que de modo automático quando se loga nas redes. Experimente pedir ajuda para as pessoas e verá que o virtual evapora na hora - e até mesmo o real.

Ouvi de uma mulher certa vez, uma frase exprimindo um conceito que achei verdadeiro e sábio sobre a amizade e compaixão no relacionamento humano: quando você não representar absolutamente nenhum ganho material ou emocional para absolutamente ninguém, então, nesse momento, você saberá que quem lhe ajudar é porque realmente gosta de você. Talvez isso só exista, de fato, no plano das ideias de Platão.

Existem alguns ditos populares como "onde há competição não existe amizade" ou "as pessoas querem te ver bem, mas não melhores que elas" que suscitam um certo "Lado B" individualista e egoísta na humanidade, senão nela como um todo pelo menos em muitos indivíduos, esses apelidados carinhosamente de duas caras ou, sem eufemismos, pessoa falsa. Isso parece se contrapor ao que disse um dos maiores filósofos gregos, Aristóteles, quando disse que o homem é um animal social, e de fato somos, pois a epopeia humana não foi erigida com base no individualismo e sim no agrupamento, no coletivo. O aparente paradoxo talvez seja explicado por uma tese da antropologia que versa sobre como o "egoísmo" foi fator determinante na evolução humana, pois foi o que possibilitou a determinados grupos obtivessem sucesso em gerir e assegurar a sobrevivência de seus descendentes através do controle de áreas de caça e água, não dividindo com outros grupos, garantindo assim os suprimentos essenciais à vida.

Somos (+) sociais com os iguais, é o que parece nos dizer a prática do dia-a-dia. Ou como diria Orwell em seu excelente "A Revolução dos Bichos": "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros."

  • Texto meu, escrito em 2022