Como Deixar Seu Roteiro Interessante?
# DISCUSSÃO
Caros amigos, leitores e colegas quadrinistas da Fliptru, como vocês estão?
Tenho praticado bastante a tão subestimada arte da roteirização, e desta prática surgiram algumas reflexões sobre o processo de roteirizar uma história que acredito serem úteis para todos, sobretudo se este artigo gerar algum debate sobre o tema, então resolvi compartilhar tais reflexões em forma de dicas e exemplos pessoais e de histórias famosas.
Antes de adentrar ao tema em discussão, creio que seja necessário separar dois conceitos que por vezes se entrelaçam, confundindo-se em um único tema, mas destaco que não são.
Me refiro a diferença entre criar uma história e criar um roteiro. Muitas vezes nos pegamos criticando a simplicidade de uma história e dizendo que tem um roteiro fraco, quando por várias vezes o roteiro é brilhante, ou criticamos uma história genial por conta de sua má roteirização.
Portanto, história é o produto final, enredo, premissa, arcos... Já o roteiro é o ‘’guia” de execução dessa história.
Nesse sentido, o roteiro se mostra algo mais complexo do que a criação de uma história, mas sim o conjunto de técnicas para organizar a forma de contar uma história.
Isso torna a arte do roteiro muito mais complexa do que jugamos, pois é um exercício extremamente técnico e lógico do manejo da história, informações, personagens, ritmo e acontecimentos.
Depois desse pequeno esclarecimento, vamos a alguns “macetes” que são úteis para tornar seu roteiro interessante.
# CHEKHOV’S GUN (A ESPINGARDA DE CHEKOV)
Chekov’s gun é uma regra da escrita, que é uma das minhas prediletas, que acaba por ser muito útil para deixar seu roteiro interessante.
Essa regra consiste na seguinte premissa: Se uma espingarda aparece no primeiro ato, ela deve ser disparada em algum momento da obra.
A Chekov’s gun é perfeita para se utilizar em capítulos ou até mesmo em arcos. Você deve deixar pequenas pistas nas primeiras cenas que irão se ligar, de preferência no último ato, trazendo uma ótima sensação ao leitor. Uma sensação de “nossa, aquela arma que caiu no chão no primeiro ato, foi usada pra salvar o protagonista”.
Um exemplo de Chekov’s gun é a arma do Noah no primeiro capítulo de “Sense life”, ela está ali aparentemente como um objeto estranho no cenário, mas se revela a principal ferramenta do protagonista.
É importante não confundir a Chekov’s gun com outras técnicas parecidas como o plaint and payoff e o foreshadowing. A Chekov’s gun está mais ligada a elementos visuais, ferramentas, objetos ou coisas que serão usadas em um futuro próximo na trama, enquanto o plaint and payof e foreshadowing são elementos e informações que serão conectadas no clímax da trama.
# PLAINT AND PAYOFF
Semelhante à Chekov’s gun, essa técnica consiste em plantar elementos ou informações que serão “colhidas no futuro”, a fim de contribuir para a coesão e preparação para um ponto específico ou clímax da trama.
Um exemplo de plaint and payoff é o soco de Gon em Hisoka na torre celestial. Durante o exame Hunter Hisoka salva Gon, entrega a sua placa com o número 44 para Gon, que se recusa a aceitar. Então Hisoka aplica um soco em Gon, e diz que só receberá a placa 44 quando Gon for capaz de golpeá-lo da mesma forma. Senhores, esse é o plaint’’.
Toda essa construção do plaint, contribuiu para que o momento do clímax, a retribuição do soco, fosse memorável e funcionasse como uma catarse para o personagem e para o leitor. Tantos socos foram dados em animes, mas poucos tão memoráveis quanto esse...
...Esse momento é justamente o payoff.
# FORESHADOW.
O Foreshadow talvez seja a mais conhecida dentre os leitores, pois está sempre em pautas nas discussões sobre os animes mais famosos, one piece que o diga, um dos maiores exemplos de Foreshadows bem executados.
Essa técnica funciona como as outras anteriores, com a diferença de ser mais sútil, são pequenas pistas, informações de fundo, elementos e toda variedade de coisas que não são contadas diretamente, mas que serão ligadas em um futuro na história.
O ódio de Arlong, é exemplo de foreshadow muito bem executado, o personagem ganha muito mais camadas após chegarmos no arco da ilha dos homens peixe.
A grande vantagem do foreshadow é que, quando bem executado, passa a prender a atenção do leitor para os pequenos detalhes dos capítulos, fazendo também com que a história seja sempre rememorada. No capítulo 34, a conclusão do foreshadow pode trazer a tona uma discussão sobre acontecimentos ou até mesmo um quadro do capítulo 4. FODA!!
Portanto, independente da técnica, usar elementos no início para ligá-los ao final, é uma demonstração de maturidade narrativa, faz com que seu roteiro pareça complexo e coeso, tornando a leitura uma atividade muito mais interessante.
# DIVISÃO DE ATOS OU KISHOTENKETSU.
A divisão do roteiro em atos, ou o kishotenketsu (uma técnica de divisão em atos utilizada pelos orientais) é indispensável para a estruturação de uma boa história e um roteiro interessante.
Nós ocidentais, temos historicamente nossas histórias estruturadas em 3 atos, desde às tragédias gregas aos filmes do James Gun. Já os orientais dividem em 4 arcos, que é chamado de kishotenketsu. Não estou aqui para explicar a divisão de 3 atos e nem o kisshotenketsu, pelo menos não nesse artigo, mas se quiserem, posso trazer esse tema futuramente.
Meu ponto aqui é argumentar sobre a funcionalidade da divisão.
Pois bem, por experiência própria, aconselho que antes de se escrever o roteiro, se escolha como ele será dividido. Isso vai evitar cenas desnecessárias, as famosas “barrigas” de roteiro.
Ao evitar as barrigas, o roteiro fica muito mais dinâmico e enxuto, sem cansar o leitor, com momentos estritamente necessários para a trama, guiando a leitura para a conclusão do ato final. Já viram algum filme que é bom, te interessou, mas em determinado momento você tem a sensação de que o tempo está passando devagar e o filme é interminável?
Acredito que sim. Isso ocorre por barrigas de roteiro no segundo ou no terceiro ato. Pode ocorrer no primeiro, mas é um pouco mais raro, também se ocorrer no primeiro ato, o filme já será considerado ruim, pois é o primeiro ato o responsável por engajar na história.
A divisão em atos também permite uma boa distribuição de cenas importantes e limita a quantidade de cenas de introdução e de desenvolvimento. Dando ritmo ao roteiro.
Uma boa prática é limitar o número de cenas para cada ato. Se você tem 5 personagens para apresentar, considere limitar de 3 a 5 páginas para cada, mas também considere diminuir o número de personagens. E por aí vai esquematizando a distribuição dos acontecimentos.
Em uma série, você deve considerar a divisão e subdivisões, sendo 1,2,3 para o grande arco, 1,2,3 para os arcos iniciais, 1,2,3 para os mid arcs e 2 e 3 para o arco final, já que o ato 1 já foi introduzido nos iniciais e mid arcs. Obviamente se você usou o plaint and payoff.
# PREMISSA
Antes de escrever seu roteiro é imprescindível começar pelo início (olha o pleonasmo), o início da escrita não é o início da história, mas sim sua premissa.
A premissa é o ponto de partida que vai delinear o ponto central da história. O que você deseja contar nessa hq?
Você deve se perguntar isso antes de iniciar seu roteiro, pois definindo o ponto de partida e o ponto final (objetivo, não final da história) você pode fazer seu roteiro que será o meio que ligará o ponto de partida ao objetivo da história.
Fazendo um jabá, em Soul: Gaiden o ponto de partida é um jovem de uma família de guerreiros que lutaram em uma grande guerra no passado, esse jovem vive em tempos de paz mas ainda assim quer seguir o caminho de um guerreiro.
Tendo isso em mente, o roteiro irá guiar diversos acontecimentos ao longo dos capítulos que dirão ao final se o nosso protagonista satisfez ou não seu objetivo.
Todas as lutas, companheiros, arcos serão focados em promover o crescimento desse personagem dentro do que ele se propôs a conseguir.
# NUANCES E SUBTEXTOS
Decidir durante a roteirização a inclusão de nuances de personagens e história e subtextos que conversam com a trama principal, é uma forma de tornar o roteiro interessante, dando aquele tempero extra que separa histórias esquecíveis das memoráveis.
Muitos podem achar que Naruto é um péssimo exemplo, mas para mim é uma das obras que melhor trabalha as nuances dos personagens.
Naruto é aparentemente um shounen de um ninja que quer se tornar o hokage, mas isso é a superfície da obra. A verdade é que o mangá fala sobre solidão e aceitação.
Uma das sacadas mais geniais do Kishimoto foi colocar como técnica principal do naruto, os kage bushins, essa técnica traz nuances muito interessantes do personagem, mas como o foco é roteiro, não vou me alongar a psique do Naruto.
Naruto é uma criança solitária e excluída, mas como o roteiro nos conta isso de forma genial e sútil? O Naruto usa os kagebushins quando está sozinho em casa. Joga com eles, brinca, discute e etc. Essas cenas geralmente são cômicas, mas é uma nuance muito triste do personagem, ele é a sua única companhia!
Pena do Narutinho, coitado.
Também há vários subtextos em Naruto, como cultura e folclore japonês, o Sassuke que aparentemente é sobre vingança tem o subtexto das expectativas familiares e o conflito e competição entre irmãos.
Enfim, pensar em formas menos diretas de transmitir algo, fará sua história mais rica, definir espaços para cenas que transmitam essas ideias, fará seu roteiro interessante.
# Ah mas você faz isso??
Sim, Soul: Gaiden é uma história com um subtexto para conflitos familiares. Alguns querem a aprovação, outros defendem o legado. Há quem rompa com a família e encontre nos amigos, outros perseguem em seus mestres uma figura paterna...
Enfim, leiam Soul: Gaiden e digam se conseguem ver essas técnicas, afina, sou amador como a maioria e saber como se deve fazer é diferente de saber fazer. Necessito de constantes feedbacks dos meus caros colegas e leitores.
Espero ter ajudado em algo e que esse artigo promova algum debate sobre o tema.
Se quiserem outros artigos sobre roteiro, escrita e técnicas, comenta aí que eu trago.
Até a próxima!
Autor do artigo
https://fliptru.com.br/@vinicius_ribeiroy